Aos 55 anos, Claudia Raia surpreendeu o Brasil ao anunciar que estava grávida de seu terceiro filho, Luca. Quatro anos depois, uma história semelhante voltou a chamar atenção, desta vez na Argentina: aos 62 anos, Mabel deu à luz seu primeiro filho, David, após uma fertilização in vitro com doação de óvulos.

O bebê nasceu no dia 12 de agosto, no Hospital San Felipe, em San Nicolás, com 2,75 quilos. Mabel já estava na menopausa quando realizou o tratamento e, segundo informações divulgadas pela imprensa argentina, a gestação evoluiu sem complicações. O caso passou a ser apontado como o de uma das gestações mais tardias registradas no país. (UOL Notícias⁠)

Embora as histórias de Mabel e Claudia Raia tenham diferenças importantes, as duas ajudam a colocar em evidência uma transformação nos projetos de maternidade. Hoje, mulheres que chegam aos 40, 50 anos ou mais podem encontrar alternativas que décadas atrás simplesmente não existiam. Mas isso não significa que a idade deixou de importar.

No caso de Claudia, a gravidez aos 55 anos ocorreu de maneira diferente. A atriz contou recentemente que havia passado por seis ciclos de estimulação ovariana, congelamento de óvulos e uma tentativa de fertilização in vitro. Durante o processo, os hormônios utilizados no tratamento teriam reativado sua ovulação, e ela acabou engravidando naturalmente. (CNN Brasil⁠)

A história da atriz ganhou ainda mais repercussão justamente porque aconteceu durante a menopausa e sem uma gestação obtida diretamente por inseminação ou transferência de embrião. Já Mabel recorreu à fertilização in vitro com óvulo doado, uma alternativa utilizada quando a mulher já não dispõe de óvulos com potencial reprodutivo.

“As duas histórias são completamente diferentes do ponto de vista reprodutivo. No caso de Claudia, houve uma ovulação espontânea após um processo de estimulação hormonal. Já em uma mulher que está na menopausa e não apresenta mais óvulos com potencial reprodutivo, a doação de óvulos pode ser uma alternativa para a formação do embrião”, explica o especialista em fertilidade e ginecologia cirúrgica Waldemar Carvalho, que atua há mais de 25 anos na área de reprodução humana.

A diferença entre os casos também ajuda a entender um ponto que muitas vezes se perde quando histórias de maternidade tardia viralizam: possibilidade técnica não significa ausência de riscos.

A idade da mulher interfere diretamente na fertilidade e, depois dos 40 anos, ocorre uma redução importante na quantidade e na qualidade dos óvulos. Na gestação, a idade materna avançada também está associada a uma maior necessidade de acompanhamento médico, especialmente em relação às condições cardiovasculares e metabólicas.

“Uma gestação em idade materna avançada exige uma avaliação criteriosa antes mesmo do início do tratamento. É necessário investigar as condições clínicas da mulher, especialmente aspectos cardiovasculares e metabólicos, além da saúde uterina, para avaliar se a gestação pode ocorrer com segurança”, afirma Carvalho.

Para Ana Paula Del Padre, representante da Tammuz no Brasil, as histórias de Mabel e Claudia também refletem uma mudança na forma como muitas mulheres encaram o planejamento familiar.

“A idade é um dos fatores que levam à procura pela reprodução assistida, mas está longe de ser o único. Existem mulheres que adiaram a maternidade por questões profissionais, financeiras ou pessoais e que, mais tarde, procuram alternativas para realizar esse desejo. Também há pacientes que enfrentam condições médicas que interferem na fertilidade”, afirma.

O avanço da medicina reprodutiva, nesse contexto, não significa exatamente que o chamado relógio biológico deixou de existir. Significa que algumas de suas limitações podem ser contornadas por diferentes estratégias, dependendo da idade, da saúde da mulher e da condição dos óvulos e do útero.

É justamente aí que histórias como as de Claudia Raia e Mabel se encontram. Uma engravidou aos 55 anos de forma espontânea depois de um tratamento hormonal; outra, aos 62, recorreu à fertilização in vitro com óvulo doado. São trajetórias diferentes, mas que ajudam a explicar por que a maternidade deixou de seguir uma única cronologia.

Ao mesmo tempo, especialistas defendem que casos excepcionais não devem ser transformados em expectativa. O planejamento continua sendo fundamental para quem deseja adiar a maternidade.

“A medicina reprodutiva avançou muito, mas isso não significa que a idade deixou de ser um fator relevante. Quanto mais cedo houver planejamento, maior é o número de possibilidades que podem ser preservadas para o futuro”, afirma Ana Paula.

Entre uma gravidez inesperada aos 55 e uma maternidade planejada aos 62, as histórias de Claudia Raia e Mabel revelam uma realidade que já faz parte da vida de muitas mulheres: os projetos de família estão mudando, e a medicina passou a oferecer caminhos que antes não estavam disponíveis. O desafio agora é equilibrar essas novas possibilidades com informação, planejamento e uma avaliação individualizada dos riscos.