Após ser lançado com sucesso de público e crítica no último mês de junho na Argentina, o documentário “Mercedes Sosa, a voz da América Latina”, do cineasta Rodrigo H. Vila, estreou no Brasil como um dos concorrentes ao Troféu Mucuripe, prêmio principal do Cine Ceará, festival que acontece até o próximo sábado em Fortaleza.

“Não tentamos em nenhum momento mostrar Mercedes como vítima ou heroína. Este filme é uma homenagem em carne e osso, não em bronze”, afirmou Vila em entrevista coletiva realizada nesta sexta-feira sobre a produção exibida na noite de ontem no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

Mercedes Sosa, que nasceu em 9 de julho de 1935 em Tucumán e morreu no dia 4 de outubro de 2009 em Buenos Aires, foi um dos maiores expoentes do folclore argentino, mas em sua extensa carreira musical também experimentou outros gêneros, como o tango, o rock e até o pop.

Em 1963, fundou o Movimento do Nuevo Cancioneiro, uma iniciativa musical-literária com projeção latino-americana que teve como objetivo impulsionar o desenvolvimento de um cancioneiro nacional em renovação permanente e evitar as manifestações puramente comerciais.

Dirigido por Vila, mas idealizado e conduzido pelo filho da cantora, Fabián Matus, o documentário retrata tanto o lado artístico de Mercedes, marcado por seu compromisso político, como o mais íntimo e pessoal através da lembrança de parentes, amigos e outros grandes artistas.

Durante a coletiva, Vila explicou que a ideia de fazer o filme foi de Matus, mas que foi uma escolha da direção colocar o filho de Mercedes para narrar o filme e fazer as entrevistas.

“Fabián não é um entrevistador. Ele age como um filho que encontra parentes e velhos amigos da mãe e, no processo, descobre coisas novas – boas e ruins – sobre ela. O interessante é que esse tipo de abordagem deixou os entrevistados mais relaxados, o que permitiu momentos de maior intimidade”, comentou o diretor.

Vila contou também que levou quase três anos para terminar o filme e que já tinha trabalhado com Mercedes Sosa em outro documentário, “Cantora, un viaje intimo”, lançado em 2009, motivo pelo qual esteve junto com a artista em seu último ano e meio de vida.

Essa proximidade de Mercedes deu ao cineasta acesso a um material de arquivo nunca antes visto e a personalidades argentinas e internacionais que dão seu testemunho sobre a relevância da cantora para a cultura musical e política da América Latina.

Além dos testemunhos de grandes nomes da música, o filme se nutre de relatos do círculo íntimo de Mercedes, como seus irmãos, os moradores de seu antigo bairro na província de Tucumán e até sua professora de música da escola primária.

Entre os artistas que participaram estão os brasileiros Chico Buarque e Milton Nascimento, o escocês David Byrne, a chilena Isabel Parra, o cubano Pablo Milanés, e os argentinos Charly García, León Gieco e Fito Páez, entre outros.

“Vários dos entrevistados não são afeitos a entrevistas ou às câmeras, como o Chico e David Byrne, mas quando dissemos que era para um filme sobre Mercedes aceitaram imediatamente e estiveram sempre muito bem dispostos. O mérito é todo dela”, destacou Vila.

As amizades com as estrelas de várias partes do mundo foram construídas por meio do sucesso internacional que Mercedes alcançou, em parte, graças à ditadura militar que obrigou a cantora a sair da Argentina e a fez ganhar fãs em outros países como Alemanha, França e Itália, como mostra o documentário.

O filme busca agora atingir pelo menos parte dessa mesma repercussão internacional. Após participar de festivais em Panamá, Austrália e Coreia do Sul, a produção estreará na Europa no tradicional Festival Internacional de Documentários de Amsterdã (IDFA), de onde depois deve partir para outros países do continente.

No Brasil, o filme estará em outubro na capital carioca para participar do Festival do Rio e, segundo Vila, já há negociações com algumas distribuidoras para garantir o lançamento comercial do documentário. 


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Voz latino-americana de Mercedes Sosa ecoa no Cine Ceará