Guido Boabaid May, médico psiquiatra há mais de 32 anos (Foto: Divulgação)

O Dia Internacional da Felicidade, celebrado em 20 de março, costuma estimular reflexões sobre bem-estar e qualidade de vida. Em meio a esse debate, surge uma pergunta importante: por que, justamente quando a felicidade se torna um objetivo tão presente nas conversas públicas e nas redes sociais, tantas pessoas relatam frustração, ansiedade e sensação de inadequação em relação ao próprio estado emocional?

Parte da resposta está na forma como a felicidade vem sendo interpretada na cultura contemporânea. Quando a felicidade passa a ser vista como uma obrigação ou uma meta constante, muitas pessoas começam a monitorar e julgar excessivamente o próprio estado emocional. Isso aumenta a autocrítica e pode gerar uma sensação de fracasso sempre que emoções negativas aparecem.

Além disso, a pressão social para “estar sempre bem”, muito presente em alguns contextos culturais e nas redes sociais, pode intensificar esse efeito. Paradoxalmente, quanto mais a felicidade é tratada como algo que precisa ser alcançado o tempo todo, maior pode ser a frustração quando ela não corresponde a essa expectativa.

Essa visão muitas vezes confunde felicidade momentânea com algo mais profundo e duradouro. A felicidade momentânea está relacionada a emoções positivas passageiras, como alegria ou prazer, e costuma depender mais das circunstâncias do momento. Já o bem-estar psicológico ao longo da vida envolve fatores mais amplos, como senso de propósito, capacidade de adaptação, satisfação com a própria trajetória e resiliência diante de dificuldades. Nesse sentido, o bem-estar não depende apenas de momentos de alegria, mas de uma avaliação mais profunda e duradoura da própria vida.

Quando a felicidade passa a ser entendida como um estado permanente, algumas expectativas comuns podem aumentar a frustração. Entre elas está a tentativa de evitar ou eliminar completamente emoções negativas, como tristeza ou frustração. Outro fator é a comparação da própria vida com padrões irreais de felicidade, frequentemente reforçados pelas redes sociais. Também é comum interpretar a ausência de felicidade constante como um fracasso pessoal. Essa busca por prazer imediato, associada à dificuldade de lidar com emoções ambivalentes, pode reduzir a satisfação com a vida a longo prazo.

Nesse contexto, aprender a lidar com emoções difíceis torna-se parte essencial da saúde mental. Um passo importante é reconhecer que emoções negativas fazem parte da experiência humana e não indicam necessariamente que algo está errado. Estudos baseados na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT – Acceptance and Commitment Therapy) mostram que aceitar pensamentos e emoções difíceis, em vez de tentar evitá-los ou julgá-los, está associado a melhor saúde mental e menor sofrimento emocional. Estratégias como a autocompaixão, ou seja, tratar a si mesmo com a mesma compreensão que teríamos com um amigo, também ajudam a reduzir o impacto emocional de situações adversas.

A própria ciência tem ampliado a compreensão sobre os fatores que influenciam o humor e a sensação de bem-estar. Nos últimos anos, pesquisas avançaram significativamente na identificação de mecanismos biológicos envolvidos na regulação emocional e na motivação. Estudos apontam para o papel de circuitos cerebrais ligados ao sistema de recompensa, além da influência de fatores genéticos, hormonais e inflamatórios. O desenvolvimento de biomarcadores e abordagens de medicina de precisão para transtornos do humor também representa uma área promissora, que pode contribuir para tratamentos cada vez mais personalizados.

No fim das contas, o verdadeiro desafio não é eliminar emoções difíceis, mas desenvolver recursos para lidar com elas de forma saudável. O bem-estar não depende apenas de evitar sofrimento, mas também de desenvolver habilidades para enfrentá-lo. Intervenções baseadas em mindfulness, autocompaixão, aceitação e atividade física já demonstraram benefícios consistentes na promoção do bem-estar em diferentes estudos. Mais do que buscar felicidade o tempo todo, o que a ciência sugere é que o verdadeiro bem-estar está na capacidade de lidar com toda a variedade de emoções que fazem parte da vida.

O Dia da Felicidade, portanto, pode servir menos como um convite à busca incessante por alegria constante e mais como um lembrete de que uma vida equilibrada inclui diferentes emoções, desafios e aprendizados. Em vez de perseguir um estado permanente de felicidade, talvez o caminho mais sustentável para o bem-estar esteja justamente na capacidade de compreender e viver toda a complexidade da experiência humana.

Sobre Guido Boabaid May

Médico psiquiatra há mais de 32 anos, com mais de 110 mil consultas realizadas, mais de 1.100 pacientes em tratamento guiado com teste farmacogenético e pioneiro da farmacogenética no Brasil. Guido também é fundador e CEO da GnTech, empresa de biotecnologia pioneira e líder em farmacogenética no Brasil, com mais de 25 mil testes farmacogenéticos realizados sob sua liderança, a empresa é detentora do maior banco de dados de farmacogenética sobre a população brasileira. Boabaid também atua como médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e é autor do livro “Onde Foi Parar Minha Alegria?”, publicado em 2025.


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Especialista diz como evitar frustrações na busca da felicidade constante