O Grilo lança o álbum “Você Não Sabe de Nada” / Giulia Lima

Quando foi a última vez que você sentiu que tinha plena certeza de algo? Em quanto tempo você percebeu que estava totalmente errado e que na verdade não tinha certeza de nada? As incertezas, dúvidas e a aceitação de que nós realmente não sabemos das coisas são algumas das inspirações do álbum de estreia da banda paulistana O Grilo que, no dia 26 de março, lançou o “Você Não Sabe De Nada” pelo selo Rockambole.

Formada por Pedro Martins (voz), Felipe Martins (guitarra), Lucas Teixeira (bateria) e Gabriel Cavallari (baixo) o álbum de estreia d’O Grilo vem após o EP “Herói do Futuro” (2017) que levou os artistas a tocarem no palco do Lollapalooza e tem o grande sucesso “Serenata Existencialista”. Depois de 3 anos, a mudança de formação, entrada do Fepa e o Cavallari passando da guitarra para o baixo, O Grilo refletiu como seria o novo trabalho e juntou o carnaval, com rock, samba e forró, além de diversas referências regionais.

Com os singles “Meu Amor”, “Trela” e “Contramão” mostrou a influência do rock, com o samba e o new wave. Enquanto o trabalho todo mistura influências da bossa nova, baião e guitarra paraense adicionado um coral feito pel’O Grilo com diversos amigos e artistas na faixa “Você Não Sabe de Nada”.

Escolher a faculdade, iniciar no mercado de trabalho, embarcar em um novo relacionamento, sair de um que não está funcionando, ir para um outro lugar, trocar de carreira, entre outras dúvidas que temos e teremos durante a vida. Para isso, O Grilo já adianta, você não sabe o que é o melhor, mas o importante é tentar, fazer, errar, mas ir para onde você acha que deve.

Para representar esta pessoa cheia de dúvidas, em parceria com o Pietro Soldi, a banda criou o “Lauro”, um jovem comum que dá vida a todas as incertezas cantadas pelo grupo. Além de estar na capa do álbum e dos singles, “Lauro” é o personagem principal do livro “Você Não Sabe de Nada” em que a banda conta um pouco mais sobre a produção do novo trabalho.

Em entrevista, Pedro (vocal) e Teixeira (bateria) contaram um pouco mais sobre a produção do álbum, os caminhos percorridos entre lançamento de “Herói do Futuro” até o “VNSDN” e em qual momento eles sentem que realmente não sabem de nada. Confira abaixo:

Daniela de Jesus: Vocês lançaram o “Herói do Futuro” em 2017 e o “VNSDN” 2021. Como foi o caminho do EP até o álbum?

Texeira: Foram 3 anos mas parece que se passaram 35. Foi muito maluco, porque o EP é uma fotografia de um Grilo que não sabia de nada nada, muito menos do que sabe hoje. Se hoje estamos lançando o “Você Não Sabe de Nada”, lá nem existia. Naquele primeiro momento nós não sabíamos muito como expressar as nossas vontades artísticas. Para mim o EP fica parecendo mais com o estúdio que gravamos do que com O Grilo. Não tínhamos referências, não sabíamos o que queríamos direito. A banda era bem nova, eu sinto que foi um pouco juntar o que tínhamos e dar para uma pessoa e um estúdio que sabia muito bem o que estava fazendo. Isso foi muito massa. Mas fez com que entendêssemos que antes de gravar era necessário saber o que queríamos. Esse processo foi todos esses anos, basicamente do começo de 2018 até 2020 em que começamos a gravar o álbum. No meio disso mudamos de formação, eram 5 foi para 4, 2019 também foi um ano maluco, abrimos o Lolla e foi só show atrás de show. Nós, como uma banda pequena ainda tentando se profissionalizar nesse meio, sem tempo para pensar em composição e gravação. Foi toda uma jornada de amadurecimento muito grande até chegar no momento em que entendemos que era preciso saber o que a gente queria, de referências, de músicas, de timbres, composição e conceito, para depois gravar e não ao contrário. O Hugo foi um cara que ajudou muito a gente nesse processo, ele que produziu “Você Não Sabe de Nada” e sempre teve esse tato de nos puxar para gente entender o que queríamos.

Pedro: O Hugo participou na produção do “Herói do Futuro” também, então acho que foi um pouco dessa coisa de retorno. Não sabíamos o que estávamos fazendo, éramos só um grupo de caras que tinha começado a compor e queria gravar, aí tem todo o processo de aprender a ser uma banda, aprender o que a gente gosta e o que não gosta, nossos instrumentos. Para depois voltar para o Hugo de novo e dizer “Bora fazer um disco”.

D: Como foi o processo de encontrar o que vocês queriam fazer?

P: Foi uma delícia! Na verdade foi maravilhoso, em um primeiro momento estávamos saindo de uma bateria de shows e compromissos, não tínhamos parado para pensar que em algum momento teríamos que lançar algo novo. A partir do momento que começamos a pensar sobre referências e o que queríamos fazer, começou a ficar um pouco complicado nesse sentido. Estávamos burocratizando muito uma coisa que não é burocrática. Teve um momento que ligamos uma espécie de lema, que falamos entre a gente que é “Follow the Fun”, segue o que é divertido, sabe. Às vezes você tem um conceito maneiro, mas aí você faz dois acordes e vê que esses dois acordes são mais maneiros que o seu conceito inteiro. O disco foi isso, saímos do estúdio rindo, estávamos nos divertindo demais. Quando estávamos compondo cada um na sua casa tinha a ansiedade da mensagem voltar e saber para onde a composição ia. Se encontrar foi reafirmar que amamos o que fazemos e com quem fazemos.

T: Nesse processo também, teve todas as maravilhas que o Pedro falou, mas tivemos que nos confrontar muito. Todas as pessoas da banda fazem parte das escolhas artistas, isso é positivo porque cada um acaba colocando uma coisa ali. Por outro lado, o processo se torna mais difícil porque não é fácil você se acostumar com uma ideia do outro que você não goste tanto. Foi desafiador, mas deu certo e estamos aí.

P: Isso é interessante porque para apresentar a sua ideia você prepara um discurso do porque ela é importante. Tanto que “Meu Amor” é uma música que eu tinha feito o refrão anos atrás, só que eu não gostava. O Teixeira para me convencer preparou todo um verso, refez o refrão, fez outros versos tudo para me convencer. Ai não teve como falar não.

“Meu Amor” ilustração por Pietro Soldi

D: Vocês gravaram o álbum em 2020, como foi fazer um trabalho neste cenário?

T: Foi uma loucura porque tivemos que mudar o jeito que nos conectar, por cada um estar em sua casa. Foi ruim porque não conseguimos ter o contato direto, mas por outro lado desenvolvemos uma nova maneira de compor as músicas e se relacionar uns com os outros mesmo a distância. Para gravação a gente se afastou de tudo, ficamos em um sítio de uma amigo e gravamos o disco lá para fazer essa imersão de banda.

D: No álbum tem um samba com rock muito marcado, além da influência de outros estilos. Eu quero saber como foi esse processo de juntar todas as referências.

P: Eu acho que em um primeiro momento foi até um medo da banda, porque estávamos fazendo as coisas bem diversificadas e nos questionamos se tudo daria certo. Acho que O Grilo tem muitas referências rítmicas e de gênero e isso nunca foi um empecilho, é justamente o que nos motiva a fazer música. Gostamos de nos propor a fazer coisas novas. Não botamos uma música no álbum porque ela orna com a coletânea, mas porque gostamos da música. A partir do momento que fazemos uma música ela pode ser um heavy metal, folk ou um samba, se vemos verdade e nossa personalidade naquilo parece que faz sentido está lá dentro. Essa mescla de gêneros sempre funciona porque no fundo são sempre nós 4 que estamos fazendo essa mescla, é sempre a nossa interpretação daquilo.

T: Eu acho que o fato do Pedro letrar as duas vibes diferentes do álbum, mais animada e mais introspectiva, dão uma conexão entre elas. Ele tem um jeito de fazer letra que é sempre muito poético. Eu acho que isso também acaba sendo a cola.

D: Como vocês acham que o “Você Não Sabe de Nada” se conecta com esta nova geração que em alguns momentos se sente bem perdida?

T: Com certeza ele se conecta com cada um dos quatro que fizeram o álbum, rola uma conexão ótima (risos). Eu acho que a principal coisa que talvez a gente se conecte com o álbum é que parece que a todo momento estamos querendo falar alguma coisa, queremos provar um ponto mas ao mesmo tempo percebemos que não precisamos provar um ponto para encontrar uma felicidade. Eu, particularmente, passei muito isso na adolescência, de qualquer verdade nova achar que vai fazer com que o mundo mude. Eu acho que o álbum é um verdadeiro acalanto para essas pessoas, que você não sabe das coisas e tá tudo bem porque você não precisa saber de tudo, você não precisa ser escutado por todo mundo, você não precisa estar certo o tempo todo. Levantar a bandeira da incerteza, levantar a bandeira do eu não sei, pode ser uma maneira de levar a vida de uma forma mais leve e deixar a aleatoriedade da vida fazer a sua função, e você ser feliz em cima disso.

P: Eu acho que é um álbum multifacetado para uma geração multifacetada. Tem músicas que se contradizem dentro do próprio álbum, tem um momento que dizemos “Eu quero viver um grande amor de morrer de saudade” e em outros “Viver um grande amor é coisa de cinema”. Porque eu acho que a nossa geração é isso, estamos mudando sempre, estamos nos adaptando direto, agora mais do que nunca. Mas eu acho que isso é atemporal, o lugar do jovem é muito esse de se confrontar e mudar à medida que isso é saudável. Acho que essa é a mensagem do álbum e foi algo que aconteceu, não foi a intenção comunicar isso. Estamos falando a nossa verdade e se tem gente que vê isso também é muito bacana.

“Meu Pior Amigo” ilustração por Pietro Soldi

D: Sobre a parte visual, como surgiu a ideia de fazer o quadrinhos com o personagem “Lauro”?

T: Nós sempre gostamos muito da ideia de relacionar O Grilo com quadrinhos de jornais. Temos essa pegada existencialista ao mesmo tempo leve e irônica. Eu acho que combina muito com os quadrinhos, porque eles carregam mensagens complexas que você pode digerir de uma maneira muito fácil. Isso sempre estava no ar, mas nunca rolou uma oportunidade da gente fazer isso. Depois no álbum, nós escutamos e percebemos que tinha alguma narrativa ali que desejávamos trazer para um pessoa que tem essa leitura cartunista. Daí surgiu a ideia de falar com o Piero Soldi, que eu já acompanhava. Entramos em contato e ele que curtiu demais o álbum e a ideia. Foi fantástico fazer toda a identidade visual e a história do álbum no Lauro. Nos impressionamos muito como a gente estava conectado mesmo estando distante.

D: E o livro surgiu como?

T: O livro foi uma consequência da identidade visual, não queríamos usar a identidade só em posts no Instagram. Queríamos eternizar este trabalho com toda a história de como foi fazer o álbum e o livro. Nós também gostamos muito de nos conectar com a galera que acompanha a gente. Então de algum modo gostamos de dar “fã service” para a galera.

P: Quando vimos tudo o que o Pietro fez chegamos a conclusão que não tinha como não fazer um livro. Estava muito bacana, então desejamos levar o projeto para frente.

D: O que o “Lauro” tem de cada um da banda?

P: Ao entrar em contato com o Pietro nós falamos como pensamos no “Lauro”. Em personagem que não tivesse uma forma, que pudesse ser muitas coisas. Estávamos imaginando um geleca ou alguma coisa sem forma. Mas ele foi lá e trouxe o “Lauro” e na hora que a banda viu todo mundo curtiu. Ele é um cara tão comum, você olha a cara dele e pensa “já vi esse cara no metrô”. O engraçado é que o Pietro juntou traços que remetem aos integrantes, o óculos, o cabelo, fora as histórias dele que são sempre trabalhando a insegurança dele. De ele querer falar alguma coisa para o mundo mas não saber o que é. Acabamos de lançar o álbum “Você Não Sabe de Nada” em meio a uma pandemia, então tem alguma coisa a ver. Eu acho muito engraçado isso, que o Pietro conseguiu acertar em cheio no que diz respeito ao álbum e o que é o Lauro. Justamente porque tem esse negócio meio do cotidiano, com uma coisa minha crítica, mas uma certa leveza. O “Lauro” para mim é um pouco esse personagem e a galera às vezes nos vê um pouco assim e talvez a gente também se enxergue um pouco desse jeito.

D: Vocês são ligados a quadrinhos? Quais são os favoritos?

P: De charge Calvin Haroldo é uma inspiração. Os quadrinhos da Mafalda…

T: Laerte

P: Laerte demais! Foi uma super inspiração. Em um primeiro momento nós tentamos fazer os quadrinhos. Pesquisamos muito sobre a Laerte mas deu tudo errado (risos) e resolvemos falar com o Pietro. Com a primeira devolutiva dele já entendemos que não sabíamos de nada. Eu gosto muito do Alan Moore. A banda inteira gosta de quadrinhos em geral, porque eu acho que a gente gosta dessa ideia de ter um espaço pequeno e poder contar muita coisa dentro desse espaço. Eu acho que a música tem um pouco disso, acredito que a vontade que a gente tem de ter vários gêneros em uma mesma música é equivalente a contar uma grande história em uma mesma página.

D: Qual foi a situação mais “Você Não Sabe de Nada” que vocês passaram?

T: Eu o dia inteiro praticamente (risos). Pra mim pega muito quando vejo um documentário sobre o espaço. Começo a perceber a quantidade de coisas que existem no mundo e eu penso “Eu não sou nada”. Aí vem a crise existencial obviamente, mas depois vem o sentimento de alívio de seguir vivendo igual uma formiguinha nesse universo gigante, vou encontrar minha felicidade nesse espaço minúsculo.

P: Acho que um grande momento foi quando a gente gravou o primeiro EP. Mas esse momento rola todo dia. O Teixeira tem essa coisa com o universo e eu tenho essa coisa com curiosidade aleatórias. Do tipo “Porque golfinhos nadam?” e eu fico super curioso. Somos curiosos, entendemos que não sabemos de nada mas acaba sempre virando um pouco de motivação para saber mais.


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O Grilo levanta a bandeira da incerteza no álbum “Você Não Sabe de Nada”

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