'Pavões Misteriosos' - Veja alguns álbuns brasileiros de 1974 até 1983


Créditos: Reprodução/Livro

Se fizermos uma pesquisa para saber qual é a melhor época da música brasileira, provavelmente muitas pessoas vão dizer que o auge está nas décadas de sessenta e oitenta; 1960 com a aparição da MPB de Elis Regina, Gilberto Gil e Chico Buarque, e 1980, com a explosão do rock de Titãs, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana e outros.

Mas foi a partir de 1974 que o mercado viveu uma de suas melhores fases de álbuns lançados, aponta o jornalista André Barcinski em seu novo livro Pavões Misteriosos: 1974 – 1983: A Explosão da Música Pop no Brasil, que acabou de ser lançado pela editora Três Estrelas.

O Virgula Música bateu um papo com Barcinski, que explicou melhor o conceito do livro, contou da sua afinidade com a música brasileira – que existe desde criança, e disse que adoraria ter entrevistado Raul Seixas e Roberto Carlos. Leia abaixo:

Virgula Música – Na parte musical, você tem em seu currículo o livro Barulho, sobre o underground americano, e comandou o programa de rádio Garagem, que era voltado mais para o rock e o indie. Eu não sabia desse seu gosto pela música popular brasileira. Quando apareceu esse interesse? Sempre esteve em você?

André Barcinski: Sim. Nasci em 1968 e cresci ouvindo o pop-rock brasileiro dos anos 1970: Secos e Molhados, Novos Baianos, Raul Seixas, a fase solo da Rita Lee…Quem cresceu nesta década, vendo Chacrinha e o Globo de Ouro, não podia escapar disso. Lembro de passar dias inteiros ouvindo o primeiro dos Secos e Molhados. Fiquei louco com aquela capa, com as cabeças dos quatro integrantes da banda em cima de uma mesa, como um banquete macabro. Era assustadora e chocante para a época. Não havia discos para crianças naquela época, com exceção de um ou outro disco do Topo Giggio, e lembro que a molecada ouvia Secos e Molhados e ria muito com músicas como O Vira. Claro que, só fui compreender como aquilo era transgressor e radical muito depois. O mesmo ocorreu com Raul Seixas. Eu o via na TV e adorava as músicas, mas foi só quando me tornei adolescente que entendi a sua importância.

Sobre Pavões Misteriosos, por que você resolveu relatar a música pop no Brasil da década de 1974 até 1983? Você sentiu falta de um registro desse tempo? Foi uma época que está injustiçada na memória do brasileiro?

Comecei a fazer o livro tentando responder a uma pergunta que sempre me intrigou: por que tantos discos bons foram lançados no Brasil na primeira metade da década de 1970? É só ver a lista: Secos e Molhados, Raul Seixas, Novos Baianos, Roberto, Erasmo, Jorge Ben, Guilherme Arantes…foram muitos LPs bons lançados num espaço curto de tempo. 1974 foi o primeiro ano em que um disco de artista novo – e um disco pop –chegou ao primeiro lugar da parada: Secos e Molhados. E 1983 foi o ano da explosão do Ritchie com Menina Veneno, que prenunciou o sucesso do BRock de Legião, RPM, etc.

Na minha opinião, foi nesse período que a música jovem dominou o país. Antes disso, a música romântica dominava as paradas, e o público consumidor era mais velho. Foi só depois do Milagre Econômico que a indústria musical brasileira se desenvolveu de verdade: a venda de discos multiplicou por dez em uma década e o público se tornou mais numeroso e mais jovem. Também foi nesse período que as rádios FMs se popularizaram, os discos com trilhas de novelas se tornaram o ‘motor’ da indústria musical, o jabá se ‘profissionalizou’, a discoteca explodiu e a onda de ‘covers’ se espalhou pelo país.

 

 

O rock brasileiro dos anos oitenta de Paralamas, Titãs, Ultraje, RPM, etc, foi uma continuidade de mercado e bons discos? 

Acho que cena de rock brasileiro dos anos 1980 não poderia ter acontecido – ou aconteceria de uma forma diferente – se a geração que retrato em Pavões Misteriosos não houvesse aberto as portas da indústria musical para a música jovem. Até o início dos anos 1970, o público consumidor de discos no Brasil era homem, com mais de 30 anos. Poucos anos depois, esse público já era mais jovem e urbano.

Tem alguém que você não conseguiu entrevistar e que seria importante para o livro?

Tem sim, mas acho chato citar pessoas que não quiseram – ou não puderam – dar entrevistas. Prefiro agradecer às que deram. Falei com 65 pessoas, de artistas (Rita Lee, Guilherme Arantes, Pepeu Gomes, Sidney Magal, Fagner, Lulu Santos, Odair José, Fafá de Belém, Sullivan, Masadas, etc.) – a produtores (Mazolla, Guto Graça Mello, Nelson Motta, Mister Sam, Roberto Livi, Pena Schmidt) e executivos (André Midani, Claudio Condé,Miguel Plopschi), e devo ter tentado outras 50 ou 60, que não puderam ou não quiseram. Mas um artista que eu adoraria ter entrevistado é o Raul Seixas. Mas cheguei 25 anos atrasado, infelizmente. Também acho que falar com o Roberto Carlos teria sido fundamental.

Estamos passando por um momento literário em que a música brasileira, e suas histórias, estão sendo resgatadas em obras. As pessoas estão começando a se interessar pelo passado da nossa música?

Acho que isso se deve à facilidade de acesso a músicas antigas. Hoje, com o Youtube, Spotify e outros meios, qualquer um pode conhecer a carreira toda de praticamente qualquer artista. Acho que muita gente está descobrindo músicas que não conhecia, e isso provoca um desejo de saber mais sobre aqueles artistas. É muito bom.

Como você enxerga o pop e o rock brasileiro nos dias de hoje? Temos boas opções de artistas e álbuns? 

Olha, não sou a pessoa mais indicada para falar de artistas novos brasileiros. Não opino sobre o que não conheço. O pouco que ouvi não me agradou, mas foi muito pouco para ter uma ideia da situação geral. Só acho uma pena que a cena dita “alternativa” se escore tanto em dinheiro público, editais e shows no SESC.


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André Barcinski fala sobre 'Pavões Misteriosos', livro de álbuns dos anos 70 até o início dos 80

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