No Dia Mundial do Combate ao Câncer, 8 de abril, reunimos quatro histórias de pessoas que enfrentaram a doença e batalharam para viver. Independente da gravidade, do momento de vida e da reação dos que estavam em volta, eles pararam para uma reflexão que guiou suas atitudes durante esse período. Conheça as histórias de Lilian, Thiago, Clarice e Diogo, e inspire-se.

Lilian Sanjuán Pescuma

Lilian Sanjuán Pescuma, 38 anos, chef de cozinha

O que tem: pseudomixoma peritoneal

Um dia, Lilian sentiu uma dor, dessas que a gente não sabe dizer se é uma pontada de gases, cólica leve ou apendicite. Essa dor foi persistindo até fazê-la procurar um médico e ir para a sala de cirurgia. O resultado veio algum tempo e muitos consultórios depois: Lilian possuía em seu corpo um muco cancerígeno raríssimo, que já havia consumido seu ovário direito, parte do pulmão, cólon e mais da metade de seu intestino. Com o câncer, vieram as dívidas – afinal, só era possível tratá-lo em um hospital de São Paulo, sem a cobertura do seguro.

A história da chef veio à tona quando ela apareceu no programa Chegadas e Partidas, da apresentadora Astrid Fontenelle, quando embarcava para a Espanha, onde reside sua mãe, para tentar um tratamento por lá (Lilian tem dupla nacionalidade). Acompanhada de Ednéia Pinho, sua companheira há mais de uma década, e de amigas, ela contou sua história e comoveu pessoas que se lembraram dela ainda jovem, ajudando na loja dos pais, na cidade de São Roque, interior de São Paulo.

Com a história na boca do povo, chegava o momento de recorrer à solidariedade de seus conterrâneos. Lili aproveitou a força que ainda restava no corpo fragilizado para começar a vender, em sua casa, batatas recheadas, pizzas caseiras e sobremesas. Amigos se uniram para fazer rifas, organizar jantares e até criar uma página para divulgar eventos beneficentes. “Estar no centro desse acontecimento me fez parar de achar que as coisas só aconteciam com os outros. E isso me apresentou a pessoas muito solidárias”, conta.

Começar a trabalhar com pessoas ajudou a humanizar a doença, e assim ela mostra que pode tocar a vida de acordo com suas limitações – mas sem em nenhum momento desistir. “Eu sou feliz mesmo com tudo que estou vivendo, e me sinto no direito de apontar e dar toques quando vejo alguém reclamando de barriga cheia”, revela. “São sementinhas que eu posso plantar nessa corrente do bem”, diz a moça, cercada de pessoas que torcem por sua estabilização.

Thiago Neves Bobi

Thiago Neves Bobi, 29 anos, publicitário

O que teve: tumor no testículo, comum em homens de até 30 anos

A vida de Thiago acabava de mudar: vinha de Recife para São Paulo a fim de continuar os estudos. Uma dor persistente o levou ao médico, onde teve o diagnóstico de câncer no testículo. O fato de estar sozinho em uma nova cidade foi decisivo na atitude que o rapaz teria nos meses seguintes. “O corpo é meu, a vida é minha. Eu tive duas escolhas: morrer ou fazer alguma coisa. Decidi ver no que isso ia dar”, afirma. Fez as malas, voltou para a casa dos pais e começou a se tratar.

Foram quatro meses de quimioterapia, chegando a momentos extremamente difíceis ao final do período. “Se o tratamento queima a carne, a alma tem que querer viver” – era com esse pensamento em mente que Thiago se levantava da cama todos os dias. Por isso, decidiu não comentar a doença nas redes sociais: “Se você se entrega, as pessoas ao seu redor se entregam. A comoção alheia não funcionava para mim”. Consciente do momento que enfrentava, ele pôde dar a real dimensão ao problema, e agir de acordo.

Hoje, em remissão, Thiago passou a dar mais valor à vida: não se priva de novas experiências, viaja sempre que pode, mostra seus sentimentos reais em relação a amigos e família. A cada novo exame que mostra que tudo está bem, ele comemora vivendo: curtindo carnavais, conhecendo novos lugares, experimentando novos sabores. E agora, na companhia das três tatuagens que fez de uma vez, encerrando uma era de protelações de sonhos.

Clarice Semerene

Clarice Semerene, 33 anos, arquiteta

O que teve: linfoma

Clarice estava vivendo o sonho de fazer mestrado em Milão, tão contente que não percebeu os sinais que o corpo dava. A contragosto, foi ver o que eram as alergias e febrículas que a incomodavam em sua rotina. Foi aí que tudo mudou: um exame que revelava 99% de chance da arquiteta estar com um tipo de linfoma fez com que ela retornasse ao Brasil e para a realidade. Passou a ver a doença como um desafio transitório, assim como tudo na vida.

“Assim que soube que estava doente, compreendi aquilo não como um castigo, mas como um recado que meu corpo estava dando. Eu precisava olhar para mim mesma e aceitar minhas limitações”, conta. Sua atitude a respeito do linfoma também foi de força e coragem, ao invés de se vitimizar: “Você percebe no olhar das pessoas que já deve ter olhado para alguém da mesma forma, com pena”.

Hoje em remissão, Clarice colhe alguns bons frutos que o linfoma a trouxe: aprendeu a aceitar o amor dos outros, a aceitar que pode precisar das pessoas e a ver quem realmente importava. “É um recomeço de vida”, conclui, sabendo que tomar as rédeas de um câncer trouxe crescimento e muito amor ao seu redor.

Diogo Kogiso

Diogo Kogiso, 25 anos, médico

O que teve: Linfomas não-Hodgkin

Diogo é médico, formado há dois anos, e pretende se especializar em oncologia, a área da medicina que estuda tumores. “Acho que minha própria experiência com o câncer pode trazer benefícios ao paciente. Eu consigo entender melhor a dor dele e dos familiares. Posso me colocar no lugar da pessoa, em vez de ter uma postura paternalista e técnica”, diz o rapaz, residente no Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Diogo passou duas vezes por tratamento contra linfomas não-Hodgkin: em 2004, quando fazia o ensino médio, e em 2008, quando estava no primeiro ano da faculdade de medicina.

“Da primeira vez, eu não tinha muita noção do que estava acontecendo. Eu tinha 14 anos e passei por um tratamento de seis meses. Tive de fazer algumas provas do colégio em casa, mas não perdi o ano. A doença despertou meu interesse por prestar medicina; antes eu tinha certeza de que prestaria algo de exatas”.

Três anos depois, ele voltou a ter sintomas: vômitos e dor de cabeça. “Esse é um tipo de câncer que pode se manifestar em qualquer lugar, e dessa vez foi na cabeça. Foi um tratamento violento e sofrido. Fiz quimioterapia e radioterapia, que fritou o meu cabelo e me deixou careca. Sou ateu e cheguei a pensar que não sobreviveria. O que me segurou foi o apoio da minha família e a vontade de viver. Você se agarra a isso, e é algo muito maior do que qualquer coisa”.


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‘A dor pode trazer crescimento': Veja histórias de quem enfrentou um câncer de forma positiva