A atriz toma sorvete numa esquina qualquer do Leblon, o cantor corre pelo calçadão, a ex-participante de um reality show compra umas lingeries no shopping. A quem isso pode interessar? Uns trinta anos atrás a resposta seria clara: a quase ninguém. Mas hoje esses fatos interessam não só aos fofoqueiros de plantão como a toda mídia, esse mesmo terreno que em um passado recente seria impensável e improvável escrever tais notícias – mesmo nas colunas sociais – dada a frugalidade dos acontecimentos, se assim podemos chamar essas ações tão cotidianas.

Nos anos 2000, a quantidade de revistas, sites, programas de tv voltados para comentar e radiografar essas tais banalidades provam que existe algo de muito profundo acontecendo em nossa sociedade – uma nova forma de experiência de vida – e a cultura das celebridades é a ponta do iceberg. E também seu condutor.

Para tal novo experimento, certamente as celebridades são nossos ratos de laboratório. Elas estão a todo o momento sendo testadas em seu limite: a quebra das fronteiras entre o público e o privado. Todos os atos de uma celebridade são passíveis de se tornar público, sempre. Não há nada de inocente quando uma celebridade abre sua casa para mostrá-la para uma revista. Pensando na mesma metáfora clichê, ela realmente está abrindo a sua vida, dando o controle nas mãos de outros para que seus atos sejam vigiados e punidos, se assim necessário.

Nos anos 2000, mergulhamos de maneira profunda em uma sociedade de vigilância total, cheia de câmeras de vídeo e fotográfica mirando você seja no elevador seja na boate, celulares muito mais para nos localizar do que como aparelho de comunicação, e onde a privacidade está definhando. Mas hoje sabermos que não podemos viver sem ela, e o grande exemplo foi realizada pela cobaia Lady Di e sua trágica morte, ainda nos anos 1990. A princesa foi vítima do frenesi para que tudo se torne público. Hoje talvez ela tenha um pouco da privacidade que não teve em vida.

Tudo que é público é passível de se transformar em notícia, a mídia a cada dia que passa nesses anos 2000 necessita vorazmente se alimentar de mais e mais notícias num volume ensurdecedor, então quanto menos privacidade, mais fatos. Mas engana-se quem acredita na frase de Andy Warhol repetida ad infinitum: “No futuro todos serão famosos por 15 minutos”.

O futuro é hoje e é pura ilusão acreditar numa suposta democracia na cultura de celebridades. Nem todo mundo vai ficar famoso, aliás, mesmo com certa pluralidade, isso é um fenômeno pra poucos. A celebridade nasce de um conjunto de ações, mas se ela não tiver o aval da mídia ou se a ação não for midiática, a pessoa nunca se tornará uma celeb. Se não tivessem gravado e passado os vídeos de Geisy saindo da Uniban achincalhada, talvez o caso não tivesse a repercussão e a comoção que teve, tirando, é claro por parte dos mais íntimos envolvidos no fato.

A ação da mídia foi vital para ela se tornar uma celebridade. Sem a mídia hoje – e essa é uma tônica que se radicalizou nessa década – não existe celebridade. Diferentemente de como acontecia em séculos passados, hoje é improvável que atores, cantores e heróis possam se tornar famosos sem ação da mídia, apenas pela solidificação de sua obra e pensamento. Nos anos 2000, obra e pensamento são o que menos importa para alguém que quer se tornar uma celebridade. 

É fundamental também ressaltar que existe uma relação recíproca, a celebridade precisa da mídia para nascer e sobreviver e a mídia precisa da celebridade para encher seu vazio de páginas e minutos de tv.

Existe também uma relação ambígua entre as celebridades e os “meros mortais”. As celebridades são os seres que vivem a vida bela, vão às melhores festas, ganham roupas incríveis, namoram seres esculturais, são muitas vezes objetos de admiração, mas também de inveja e, porque não, desprezo. A sua falta de privacidade que surge da relação promíscua com a mídia faz com que a todo o momento eles entrem em julgamento moral. Bater na namorada, ficar louca e raspar o cabelo, dependurar o bebê na janela ou simplesmente estar de mau humor são altamente comentados e condenados. Exatamente ao ganhar tantos brindes materiais, as celebridades perdem seu direito espiritual de serem meramente humanos e assim errar, falhar.

Paradoxalmente ao folhearmos antigas colunas sociais, vemos as madames e as figuras da sociedade com seus risos impávidos, sempre com os dentes na frente, sorrindo. Não há outra pose que não a da felicidade congelada pelo flash. Hoje, vemos as celebridades em diversas poses e sempre preferimos a que ela não está sorrindo. Ficamos atentos para aquele close que mostra algo de humano, o rosto franzido, o braço envelhecido, o olhar bisonho. Nesse instante temos uma iluminação que esses seres testados em um laboratório sofisticadíssimo, no futuro distante, ainda poderão apresentar traços que lembrem a raça humana. Aqui, no começo do terceiro milênio, apenas fotografamos esse momento de mudança que os humanos começam a transitar.

Vitor Angelo é editor de Celebridades do Virgula, colunista da Folha de São Paulo e roteirista de cinema e televisão.


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Vitor Angelo: Gaiola das Lohans - o fim da privacidade nos anos 00

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