Em matéria publicada pelo jornal A Folha de São Paulo no mês de abril, a ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Discos) divulgou o balanço geral da indústria fonográfica do ano de 2008. Surpreendentemente, o estudo apontou um início de recuperação do mercado fonográfico tupiniquim.

Segundo dados da organização maior da indústria musical verde-e-amarela, esse crescimento teria acontecido especialmente graças ao aumento da compra de música em formato digital (79,1% a mais do que em 2007).

Oficialmente, as vendas de álbuns no Brasil aumentaram 6,5% no ano passado, isso sem levar em conta a nossa inflação de 5,9% ao ano. Mas como é que com um crescimento apenas 0,6% maior que a inflação pode ser sentido pelos proprietários de tradicionais lojas de discos paulistanas?

“Na nossa mão, eu não consigo ver crescimento nenhum”, comenta Marcelo Fusco, dono da Trezeta Musik, aberta há pelo menos seis anos; Após passar pela Galeria do Rock, a loja está atualmente localizada na rua Augusta. “Pra nós, que temos que negociar com os fornecedores e pensar em número de cópias, esses números não valem”, afirma o lojista, descrente.

“A gente já tá vivendo de bonus tracks”, brinca Luiz Calanca, proprietário da lendária gravadora/loja Baratos Afins, referindo-se à impossibilidade de atrair compradores com o mesmo material que existe na web. Sem acreditar nos números expostos pela associação, o lojista ainda discorda da capacitade de atuação do órgão entre as lojas menores. “Com tanto tempo de gravadora, nunca fui procurado por essa ABPD, que nunca quis saber de nada com a gente. Nem sei como fazer pra me filiar a esses caras e na verdade não dou a mínima pra eles”, detona.


 


No atual cenário, as lojas de discos que ainda não têm acesso às tecnologias que permitam oferta de conteúdo digital estão obtendo mais lucro com a venda de CDs importados, não lançados no Brasil ou com atrativos especiais, como faixas especiais, embalagem digipack e outros. Esses álbuns são vendidos às duras penas para os aficionados de plantão, já que cada loja recebe um número bem reduzido de cópias.

“Cara, parece um namoro com os selos. Você fica alisando os caras e falando ‘a gente tem uma loja que é legal e tem uma galera que curte até vinil!’ e os caras piram: ‘mas… vinil?'”, diz Marcelo. “Tem que acertar pra conseguir, sei lá, cem discos… É um trampo!”.


No acervo da Baratos Afins, mais de 15 mil títulos ficam parados, enquanto só cerca de três mil circulam nas mãos dos compradores.



 


Tecnologia: problema ou solução?



Calanca, que não esconde de ninguém sua aversão ao mundo da internet, mostra-se despreocupado com as flutuações do mercado fonográfico nacional, mesmo mantendo a loja com o maior número de funcionários da Galeria do Rock. Para ele, vender artigos digitais está fora de cogitação.


 


“Eu já tive uma empresa de informática”, explica o lojista. “Eu não sou nenhum ET no assunto. Pode até ser que eu seja antiquado, mas não vejo a menor graça na internet. Não consigo ver vantagem em todo esse lixo tecnológico que ficam empurrando pra gente. Pra mim, o importante é manter a minha loja e poder empregar os meus amigos”, comenta.

Para outros lojistas, porém, a tecnologia pode ser uma tábua de salvação. “O que eu acho é que, se a tecnologia estiver ao alcance do lojista, ele não vai pensar duas vezes antes de oferecer a venda de conteúdo digital”, comenta o proprietário da Trezeta. “Porque, na grande maioria das lojas de disco, os caras estão pouco se lixando pro formato. Tirando um ou outro, que querem o disco mesmo, o povo quer mais é ouvir música, não importa como”.

“Todo mundo fala um monte desse “fenômeno In Rainbows” (referindo-se ao último disco do Radiohead, disponibilizado para download pela Web pelo esquema “pague o quanto quiser”) e tudo mais. Pode até ser que isso tenha mesmo dado mais de um milhão de downloads e tudo, só que venda efetiva, no balcão, de cópias físicas, aqui no Brasil não deu em nada”, opina Luiz Calanca.


Outras soluções



A venda de música digital pode ser uma solução, mas há quem tente outras ações que empurrem para frente um mercado emperrado, que sobrevive do fetiche dos fãs pelos encartes e bolachonas produzidas fora do país.

Na Inglaterra e nos EUA, foi criada a iniciativa do Record Store Day, que levou artistas consagrados a lançarem singles e materiais especiais por meio de suas lojas independentes favoritas, unindo novamente os artistas ao ponto de venda final e cortando os intermediários e atravessadores virtuais.

“Acho a iniciativa legal, mas acho que a cultura do brasileiro não é pra isso”, sentencia o dono da Baratos. “Aqui o povo tá muito mais preocupado com as cuecas do Radiohead do que se vai ou não ter um relançamento dos Mutantes, sacou? Pra nós que tivemos que abrir caminho no bico do coturno, essas coisas são f*** de aturar.”

“Eu acredito que uma idéia dessa seja possível”, completa Marcelo. “É uma boa estratégia. Lá fora, os caras são os pais do business. Se está dando certo por lá, nós, como ‘colônia’, temos que tentar trazer isso pra nossa realidade.”


 


Show

Um detalhe que merece destaque é que nesta quinta, dia 21, uma das bandas mais importantes do rock psicodélico brasileiro se apresenta na cobertura da Galeria do Rock (entre a São João e a 24 de Maio) em uma iniciativa para levar mais gente a frequentar o shopping de venda de discos e outros artigos relacionados a música.

O Violeta de Outono foi fundado em São Paulo no ano de 1984 e é o representante mais badalado do rock progressivo latino entre o público europeu. O show é grátis e acontece às 14h. Infelizmente, não houve divulgação alguma do evento a tempo de comunicarmos com antecedência.

Pra quem se interessou pelas lojas, seguem abaixo os endereços:

Trezeta Musik
Rua Augusta, 2203 – Loja 07 – Galeria América
Telefone: (11) 3081-2270
Site: http://www.trezetamusik.com/

Baratos Afins
Av. São João, 439 – 2º andar – Lojas 314/318. Entrada também pela rua
24 de Maio, 62
Telefone.: (11) 3223-3629
Site: http://www.baratosafins.com.br/


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Venda de CDs no Brasil: estatísticas mostram aumento, mas lojistas discordam

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