Júlia Nascimento, 13 anos, e Andréia Dias, 12 anos, acordam às 6h. Como muitas crianças de mesma idade, preparam-se para ir à escola. Presilha no cabelo e mochilas nas costas, seguem para o píer da praia onde moram, em Matariz, uma comunidade costeira em Ilha Grande, em Angra dos Reis. Lá, esperam com mais 20 crianças o barco escola para levá-las até o colégio onde cursam a 5º série do ensino fundamental.

No município de Angra, a cerca de 150 quilômetros do Rio, pegar um barco para ir para colégio é a realidade de 217 alunos do 1º ao 9º ano, de 22 comunidades da Ilha Grande, segundo a prefeitura. A embarcação que leva as meninas parte sempre da costa do município, levando inclusive professores, e passa por oito praias até a última escola, em um trajeto que pode passar de três horas, dependendo das condições do mar.

A travessia no barco escola demora mais que as embacações para os moradores por conta da capacidade das unidades e das diversas paradas. Júlia e Andréia reclamam do tempo gasto na travessia. Ambas pegam o transporte no primeiro píer e seguem até a escola em Araçatiba, a penúltima parada, durante cerca de duas horas de viagem. Assim como os demais alunos, vão conversando ou fazendo lição. Nas sextas-feiras, podem usar a pequena biblioteca dentro da embarcação, que “ajuda a distrair”, diz Andréia.

Acostumada ao trajeto, Júlia garante que não fica enjoada nem quando o mar está agitado. Porém, gosta mais do passeio quando há novidades durante o percursso. A menina conta que, em determinados dias, é possível ver tartarugas marinhas e até golfinhos no mar limpo e de cor azul. “Às vezes, isso acontece, estamos acostumadas”, brincou.

O marinheiro Délio Fernandez confirma a história da menina, mas lembra que o translado “não é sempre uma maravilha”.“Quando chove e o mar fica virado, não dá para chegar lá [Provetá]”, revela. No último ponto do barco, a cerca de três horas de viagem da costa de Angra dos Reis, desembarcam professores e alunos em uma escola de ensino médio.

Quando o tempo impossibilita a viagem do barco escola, por questões de segurança, as crianças são alertadas pelos pais e sabem que barco não vai passar para buscá-las. O problema, segundo o marinheiro, é quando a garotada está na escola e o tempo vira, de repente. Para garantir a volta de todos, em dia de tempos ruins, o marinheiro tem um jeito peculiar de chamar atenção.

“Eu já venho tocando a buzina de Provetá e elas [crianças] vêm correndo [da escola até o píer]. Não tem outro jeito. Tem que largar tudo e vir para o barco, senão a gente não sai”, conta, dizendo que os professores conhecem o alerta do barco.

A diretora da Escola Municipal de General Silvestre Travassos, em Araçatiba, Sayonara Neves Martins, diz que a situação não é comum. Ela elogia o trabalho dos barcos, mas pondera que o tempo de travessia é muito longo. “As crianças chegam cansadas em casa e, muitas vezes, deixam de lado a lição para fazer outras coisas.”


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Crianças de Angra dos Reis enfrentam até três horas de barco para ir à escola

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