Um vídeo com ofensas racistas dentro de um prédio em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, reacendeu o debate sobre a violência racial praticada em espaços de convivência cotidiana. A promotora de vendas Lethycia Diniz da Silva Dimas registrou um boletim de ocorrência contra uma vizinha, que, segundo ela, teria cometido ataques racistas e ameaças ao longo dos três anos em que vivem no mesmo endereço.
Desta vez, Lethycia decidiu registrar as agressões em vídeo. Nas imagens, a vizinha aparece proferindo uma série de ofensas racistas contra ela, inclusive fazendo referências à escravidão. De acordo com a vítima, os episódios não seriam isolados. Ela afirma que já precisou acionar a Polícia Militar diversas vezes por causa das agressões, mas que até então não havia conseguido formalizar um registro sobre os episódios. “É uma mistura de tristeza com raiva, não dá para explicar. Como que um ser humano em pleno 2026 consegue ter essa mentalidade”, relatou Lethycia.
O caso chegou à polícia

Após a divulgação das imagens, Lethycia procurou a Polícia Civil e registrou a ocorrência como injúria racial. A gravação passou a ser considerada pela vítima uma forma de documentar uma situação que, segundo ela, vinha se repetindo há anos. Desde 2023, a injúria racial passou a receber o mesmo tratamento jurídico dado ao crime de racismo, com mudanças importantes na legislação, incluindo a previsão de que o crime não admite fiança.
Para a advogada da vítima, a Dra. Lorrana Gomes, do LGomes Advogados, situações como essa exigem atenção não apenas ao conteúdo das ofensas, mas também ao contexto em que elas acontecem e às possíveis consequências para a vítima.
“A existência de registros, testemunhas, vídeos ou outras formas de documentação pode ser importante para demonstrar a repetição dos episódios e ajudar na apuração dos fatos. Em situações de violência dessa natureza, é fundamental que a vítima procure as autoridades e busque orientação jurídica”, explica.
Quando a ofensa ultrapassa o insulto

O episódio ganhou uma dimensão ainda mais preocupante, segundo a defesa de Lethycia, pelo conteúdo das falas registradas no vídeo. As declarações atribuídas à vizinha não se limitariam a uma ofensa direcionada à vítima, mas apresentariam referências de caráter racial e à escravização da população negra. É justamente esse aspecto que levou a defesa a avaliar outras medidas para proteger Lethycia enquanto o caso é investigado.
“A nossa grande preocupação é que ela passe também a pôr em risco a integridade física pois como podemos ver nos vídeos ela possui claramente um forte discurso de ódio e isso nos preocupa bastante, ressalta a Dra. Lorrana Gomes. Além do registro policial, a defesa avalia solicitar uma medida protetiva. A preocupação, segundo a advogada, está relacionada à possibilidade de que a escalada das agressões verbais resulte em outros tipos de violência.
A adoção de medidas de proteção depende da análise das circunstâncias concretas do caso e das autoridades competentes. Por isso, a orientação jurídica individualizada é importante para definir quais providências podem ser tomadas diante das evidências disponíveis.