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Moradores de rua

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Aline está grávida de três meses e foi mandada embora da gráfica em que trabalhava quando seu chefe descobriu a gestação. No mesmo mês, ela e o marido foram despejados do prédio onde moravam.

Aline está grávida de três meses e foi mandada embora da gráfica em que trabalhava quando seu chefe descobriu a gestação. No mesmo mês, ela e o marido foram despejados do prédio onde moravam.

Foto: Gabriel Quintão

Julio está há três anos na rua por causa do alcoolismo. Há quatro, saiu de Belo Horizonte (MG), onde foi treinador de boxe, e mudou-se para São Paulo.
Ele trabalhou um ano como faxineiro na capital paulista, ficou um tempo estável, mas depois começou a "beber demais". "Eu  daria treino de boxe, faria qualquer trabalho, mas primeiro tenho de tirar os documentos, que me roubaram".
William foi para a rua há três anos depois de a casa onde morava, em Itaquera, ter pegado fogo. Ele conheceu a mulher na rua e teve uma filha com ela, agora com três meses.
Ele toma conta de carros na rua, mas é empapelador de esculturas profissional e trabalhou em 12 carnavais seguidos. "Dá uma depressão de ver a minha filha dormindo no papelão. O que eu mais quero é arrumar um lugar para ficar, não quero que ela comece a engatinhar na rua".
O pichador Kall terminou o segundo grau e diz que foi "criado bem pela mamãe até os 19 anos". "Daí, eu caí no mundão e só aprontei".
Ele trabalhou com tudo quanto é coisa, inclusive como DJ. "Eu tocava black charme e rap, manjo das picapes, sei riscar, mixar. Comecei com 12 anos ajudando meu cunhado como DJ". Agora, Kall está nas ruas ajudando um amigo com cirrose. "Tenho de pagar as dívidas com Deus".
Marcelo é de Ribeirão Preto e veio a São Paulo a passeio, pois sonhava em conhecer a cidade. Nunca mais voltou.
"Desde criança, eu via o Vale do Anhangabaú na TV e queria vir para cá. Mesmo que a vida seja difícil, amo essa cidade. Eu já vi shows de graça do Zezé Di Camargo & Luciano, do CPM 22, do Rappa, do Charlie Brown Jr... Porém, eu tive uma desilusão amorosa muito grande, abandonei tudo e vim para a rua".
Aline está grávida de três meses e foi mandada embora da gráfica em que trabalhava quando seu chefe descobriu a gestação. No mesmo mês, ela e o marido foram despejados do prédio onde moravam.
"Eu já tinha morado na rua antes, e sei que isso não é vida para ninguém. Quero que minha menina estude, seja alguém na vida. Não quero que ela seja o espelho do que eu sou. Meu sonho é ter uma filha que faça faculdade".
Vanderlei era entregador de pizza e foi para a rua há três meses, depois de uma briga com a família.
"Sei ler e escrever bem pouco, mas sonho em voltar a estudar. Quero ter um trabalho melhor para cuidar do meu filho". Ele sente saudade do garoto de dois anos, a coisa de que tem mais orgulho. "Quando trabalhava, não deixiei nada faltar".
O pernambucano foi operador de máquina, porteiro, ajudante geral e açougueiro. Entrou em depressão depois de perder a mãe e foi parar na rua. "Sabe quando você perde uma pessoa que ama muito? Ela era tudo para mim. Eu cuidei dela até a velhice. Os pais são a coisa mais preciosa do mundo. Queria ter colocado um filho no mundo". Rinaldo tomou conta de um garoto que o chama de "pai", mas não o vê faz tempo.
Alan trabalha com automação predial e foi para a rua "por causa da depressão". "A minha mulher ficava enchendo o saco, e eu caí fora", disse. Ele já foi peão de rodeio e cuidou de gado em uma fazenda. "Eu ganhava R$ 1,5 mil e levava uma vida tranquila, dava para dormir o dia inteiro. Também adestrava cavalo".