As histórias de Zoé Hammer não começam com “era uma vez” nem prometem finais felizes. Em “Birdlike”, álbum de estreia que acaba de chegar às plataformas digitais, a artista recorre a personagens perdidos, águias que desconhecem a capacidade de voar, amores impossíveis e terrenos movediços para reconstruir experiências da própria vida.
Criada entre Brasil, Suíça e Inglaterra, Zoé cresceu falando diferentes idiomas e absorvendo culturas que nem sempre pareciam caber dentro de uma única identidade. A sensação de pertencer simultaneamente a vários lugares — e completamente a nenhum deles — tornou-se o centro de um disco sobre a liberdade de inventar o próprio território.
Produzido pelo londrino Pascal Jean Christoph Clijsters, “Birdlike” reúne sete canções e a vinheta “Interlude”, desenvolvidas ao longo de cinco anos. Musicalmente, o trabalho aproxima soul music, rap, psicodelia e referências eruditas, sem limitar a estreia da artista a um único gênero.
“O álbum parte dessa busca por encontrar um lugar no mundo sem fazer a menor ideia de como chegar até ele. Às vezes, a única opção é se jogar de corpo e alma naquilo que deseja e confiar que vai descobrir o caminho enquanto o percorre. É sobre querer levantar voo e perceber que talvez já tenha saído do chão”, explica Zoé Hammer.
Uma Alice dentro da história errada
Filha de mãe brasileira e pai suíço, Zoé frequentemente misturava expressões de diferentes idiomas durante a infância. Quando as palavras não conseguiam traduzir completamente aquilo que desejava comunicar, encontrou nos contos de fadas, nas lendas e nas metáforas uma linguagem alternativa.
Essa relação aparece diretamente em “Alice Lost in Wonderland”, faixa inspirada em um período de conflito sobre seu futuro profissional. Enquanto a música era considerada uma escolha pouco viável por sua família, Zoé cursava Ciências Ambientais e, à noite, estudava atuação e teatro musical.
Em vez de relatar literalmente a experiência, a artista imaginou uma personagem que descobre ter entrado no conto de fadas errado. Embalada por referências do rap e da soul music, essa nova Alice precisa abandonar o roteiro que conhecia para descobrir outras possibilidades de existência.
“Mesmo perdida, ela aprende mais sobre si mesma e conhece possibilidades que jamais teria encontrado se nunca tivesse entrado em nenhum conto”, afirma.
Do desejo de voar ao fim de uma amizade
A viagem começa com “Dreams”, encontro entre psicodelia e música erudita que recupera uma experiência capaz de transformar a visão de mundo da artista. Em seguida, “Alice Lost in Wonderland” leva o ouvinte para um universo em que crescer também significa questionar as expectativas construídas pelos outros.
“Nothing to Say” aborda a solidão de perceber que alguém ama uma imagem idealizada, e não a pessoa que existe por trás dela. Já “Don’t Be Polite With Me” assume a forma de uma carta de amor para a música, marcada pelas dúvidas, renúncias e persistências envolvidas na escolha de uma trajetória artística.
A faixa-título nasceu de uma história contada pelo avô de Zoé: a de uma águia criada entre galinhas que passou parte da vida sem saber que também era capaz de voar. A imagem tornou-se uma metáfora para a coragem de reconhecer as próprias possibilidades.
“Levei essa história comigo por toda a vida. Ela me fez acreditar que poderia conquistar qualquer coisa se realmente quisesse. Já a história de Ícaro, que voou perto demais do sol, foi a que escolhi ignorar”, brinca.
Em “I’ll Let You Go But I’ll Leave My Heart in Your Handbag”, um amor impossível ganha contornos de conto de fadas trágico. O encerramento fica por conta de “Rotten”, composição que trata o fim de uma amizade como uma forma profunda de luto.
Para representar a insegurança dessa ruptura, Zoé imaginou uma pessoa como um lago e construiu a harmonia de modo que o ouvinte não encontrasse um ponto de estabilidade.
“Queria que o chão parecesse uma lama movediça em que você nunca encontra um lugar firme para pisar”, detalha.
Um videoclipe para cada canção
O universo de “Birdlike” não termina no álbum. Cada uma das sete músicas ganhará um videoclipe, realizado de maneira independente com a colaboração de amigos e outros artistas próximos a Zoé.
Cantora, compositora, atriz, escritora, diretora e DJ, ela utiliza o projeto audiovisual para conectar as diferentes linguagens de sua trajetória e dar novas imagens às personagens, aos símbolos e às atmosferas apresentados nas canções.
“O disco, os vídeos e a comunidade que nasceu ao redor deles são uma prova concreta de que, quando você sonha com alguma coisa, também é sua responsabilidade tentar transformá-la em realidade”, declara.
Em “Birdlike”, Zoé Hammer reescreve os contos que recebeu e se coloca no centro da própria narrativa. Se durante anos a artista procurou um lugar ao qual pudesse pertencer, seu primeiro álbum apresenta uma resposta: nem todo território precisa ser encontrado — alguns precisam ser inventados.