
Victor Abrão revisita duas décadas de composições no álbum “Ainda Podemos Sonhar” (Foto: Thaís Mallon)
Após quase duas décadas compondo e amadurecendo sua trajetória musical, o cantor e compositor brasiliense Victor Abrão apresenta seu primeiro álbum de estúdio, Ainda Podemos Sonhar. O disco reúne 12 faixas autorais e percorre diferentes ritmos da música brasileira, como samba, MPB, rock e xote. O lançamento nas plataformas digitais acontece em 12 de março. Em entrevista exclusiva ao Vírgula, o artista conta que revisitar canções escritas ao longo de tantos anos foi também uma forma de reencontrar diferentes momentos da própria vida.
Segundo ele, cada música carrega memórias específicas do período em que foi composta. “Cada música contém um tempo-espaço e uma memória. Toda vez que eu toco aquela canção, eu a atualizo para o momento presente, porém algo daquele dia em que ela nasceu revive”, afirma. Para Abrão, revisitar essas composições não significa apenas olhar para o passado, mas reinterpretar sentimentos que continuam presentes. “É como se eu renovasse aquele olhar que a música traz sobre a vida”, explica.
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Algumas das faixas do álbum nasceram ainda no início de sua trajetória artística. Uma delas é “Transitoriedade Múltipla”, escrita há quase duas décadas. “Eu fiz essa música num momento em que queria descobrir coisas dentro de mim, olhar mais para dentro e me conhecer melhor para poder estar mais aberto às outras pessoas”, recorda. O compositor compara o reencontro com essas canções a uma experiência quase afetiva. “É como reler cartas que ainda não terminei de decifrar. Uma viagem para o passado, mas que eram garrafas que eu lançava no mar para o futuro.”
A diversidade de ritmos presentes no álbum reflete diretamente as referências musicais que acompanharam o artista ao longo da vida. Abrão explica que crescer em Brasília teve influência decisiva nesse processo. “Brasília é uma terra muito musical. Você anda pela rua e dá de cara com um samba, depois encontra um improviso de jazz, no mesmo dia cai num show de rock. Vira uma esquina e dança um forró”, conta. Para ele, essa mistura natural de estilos acabou se refletindo de forma orgânica no repertório do disco.
Além do ambiente cultural da capital federal, o cantor também destaca a influência da própria história familiar. Parte de seus parentes maternos é da Bahia, enquanto familiares do lado paterno passaram pelo Rio de Janeiro antes de se estabelecer em Brasília. “Minha mãe, meus avós e tios maternos são todos da Bahia, então essa cultura esteve muito presente desde a infância. Por outro lado, tenho tios por parte de pai que saíram do Piauí e viveram no Rio de Janeiro nos anos 70, trazendo o samba quando chegaram a Brasília”, explica. Segundo ele, o resultado dessa mistura aparece diretamente na identidade do disco. “Toda essa salada da cidade e da família está impressa nesse álbum, que parece uma caminhada de um dia em Brasília.”
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Outro elemento importante para a construção do trabalho foi a parceria com o diretor musical Cairo Vitor, iniciada em 2015. Abrão conta que a relação construída ao longo dos anos foi essencial para a identidade sonora do projeto. “Sempre admirei muito a sensibilidade e o talento musical do Cairo. Ele escuta bastante o compositor na hora de escrever os arranjos e, ao mesmo tempo, eu também tenho escuta aberta para as ideias que ele traz”, afirma. Segundo o artista, essa troca criativa permitiu que as músicas ganhassem novas camadas durante o processo de produção. “Dentro do que eu sonho para a música, ele apresenta perspectivas diferentes que acabam valorizando a canção.”
O álbum também reúne diversos músicos da cena brasiliense, o que transformou o processo de gravação em uma experiência colaborativa. Abrão afirma que a participação desses artistas foi fundamental para o resultado final. “Todos contribuíram muito, cada um com sua musicalidade própria e todos muito abertos à direção do Cairo e às ideias do compositor”, diz. Segundo ele, o espírito coletivo esteve presente durante todo o processo. “Nesse ‘jogar junto’, descobrimos muitas coisas até na hora da gravação. Foram momentos muito criativos, com escuta e presença.”
Quando questionado sobre qual faixa melhor representa o espírito de Ainda Podemos Sonhar, o compositor prefere destacar duas canções do repertório. Para ele, “Eu Só Queria Iluminar” traduz o desejo de esperança presente no disco. “É um tipo de sonho real, um desejo de que as pessoas encontrem seu caminho e felicidade, mesmo com os tombos da vida”, afirma. Já a música “O Vagabundo” traz uma perspectiva diferente sobre o tema. “Ela fala dessa realização de fluir, de estar presente e dançar com o que chega, abraçar o que já temos. É um sonho muito possível e concreto, que às vezes também não vemos.”
Em entrevista exclusiva ao Vírgula, cantor e compositor de Brasília fala sobre memória, influências musicais e o processo de criação de seu primeiro disco.
O álbum “Ainda Podemos Sonhar” reúne canções compostas ao longo de quase duas décadas. Como foi revisitar músicas escritas em momentos tão diferentes da sua vida?
Foi e ainda é muito interessante, pois cada música contém um tempo-espaço e uma memória. E toda vez que eu toco aquela canção, eu a atualizo para o momento presente, porém, ao mesmo tempo algo daquele dia em que ela nasceu revive. É como se eu renovasse aquele olhar que a música traz sobre a vida.
“Transitoriedade Múltipla”, por exemplo, eu fiz há 19 anos atrás num momento em que queria descobrir coisas dentro de mim, olhar mais pra dentro, num processo de me conhecer, pra daí poder estar mais aberto com as outras pessoas. E esse sentimento ainda está aqui dentro. É como reler cartas que ainda não terminei de decifrar. Uma viagem ao passado mas que eram garrafas que eu lançava no mar para o futuro.
Ao mesmo tempo, essas músicas sempre estiveram no meu repertório, então elas também caminharam comigo ao longo do tempo. Então é uma sensação de ir renovando e re-entendendo aquele sentimento que cada música traz ao longo dos anos, mais do que revisitar ou voltar ao passado.
O repertório passa por samba, rock, MPB e xote. Essa diversidade de ritmos reflete suas influências musicais ou surgiu durante o processo de produção do álbum?
Essa diversidade reflete bastante as minhas influências. Brasília é uma terra muito musical. Você anda pela rua e dá de cara com um samba, depois anda mais 30 passos, está num improviso de jazz, no mesmo dia cai num show de rock. Vira uma esquina e dança um forró.E influências pessoais também e de família. Mãe, avô, avós, tios e tias maternos são todos da Bahia, isso traz uma influência desde a infância e as visitas constantes aos parentes no Estado. Por outro lado, tenho tios por parte de pai que saíram do Piauí e moraram no Rio de Janeiro nos anos 70. Quando chegam a Brasília nos anos 80, chegam trazendo a alegria do samba.
Então toda essa salada da cidade e da família estão impressas nesse álbum, que parece uma caminhada de um dia em Brasília.
Você trabalha com o diretor musical Cairo Vitor desde 2015. Como essa parceria contribuiu para a identidade sonora de “Ainda Podemos Sonhar”?
Essa parceria foi muito importante. Nós já nos conhecíamos desde a UnB e sempre reparei na sua sensibilidade e talento musical. Ele escuta bastante o compositor na hora de escrever os arranjos e, ao mesmo tempo, eu também tenho escuta e coração abertos para os arranjos que vão chegando. Dentro do que eu trago e sonho para a música, Cairo traz ideias inovadoras e outras perspectivas que acabam valorizando a canção.
O álbum reúne vários músicos da cena de Brasília. Qual a importância desse diálogo com artistas da cidade para a construção do projeto?
Todos esses músicos e musicistas que passaram pelo disco contribuíram muito, cada um com seu estilo e musicalidade próprias, e todos muito abertos à direção do Cairo e aos pedidos do compositor. Nesse “jogar junto”, descobrimos coisas até na hora da gravação. Foram gravações muito criativas, com escuta e presença.
Se tivesse que escolher uma música do disco que sintetiza o espírito de “Ainda Podemos Sonhar”, qual seria e por quê?
As canções “Eu Só Queria Iluminar” e “O Vagabundo”. A primeira traz um tipo de sonho real, um desejo de que as pessoas encontrem seu caminho e felicidade, mesmo com os tombos da vida. Já “O Vagabundo” fala dessa realização de fluir, de estar presente e dançar com o que chega, abraçar o que já temos.
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