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Perseus lança músicas em português e une eletrônico, brasilidade e crítica social

Por Da Redação
Perseus lança músicas em português e une eletrônico, brasilidade e crítica social

Conhecido por músicas como “Champagne”, “Mirrorball”, “Latino”, “Tra” e “Dupree”, o cantor e produtor Perseus inicia uma nova fase da carreira com composições em português. Os lançamentos “Neon e Sal” e “Fatura” mantêm a base eletrônica presente em seus trabalhos anteriores, mas ampliam o diálogo com ritmos brasileiros, o suingue do baile charme e temas relacionados às contradições sociais e políticas do país.

A decisão de cantar em português surgiu depois de um período vivendo no exterior. Perseus morou na Austrália e em Cali, onde passou anos compondo sob uma perspectiva mais internacional. O retorno à língua materna, segundo ele, tornou-se necessário para expressar com maior precisão os assuntos que desejava abordar.

“Percebi que a urgência do que eu precisava dizer agora exigia a navalha da minha língua materna. O português tem um peso e uma malícia que são insubstituíveis quando o assunto é a nossa própria ferida”, afirma.

O Brasil e, particularmente, o Rio de Janeiro ocupam posição central nessa nova produção. Para o artista, a capital fluminense sintetiza parte das tensões que inspiraram as letras, ao reunir beleza, desigualdade, efervescência cultural e conflitos sociais.

“O Brasil está em constante ebulição, e o Rio de Janeiro é o epicentro dessa esquizofrenia social e política. Chegou um momento na minha trajetória em que fazer música apenas para o escapismo não era mais suficiente. Eu precisava usar o som da pista de dança como um tribunal para as nossas próprias hipocrisias”, explica.

Do luxo da pista à realidade brasileira

A mudança de idioma não representa, no entanto, o abandono da identidade construída por Perseus. A proposta é utilizar a mesma sofisticação eletrônica associada a suas produções anteriores para abordar uma realidade mais áspera. O artista define o processo não como uma adaptação, mas como uma subversão de sua própria estética.

“Faixas como ‘Champagne’ e ‘Dupree’ ajudaram a consolidar uma identidade muito forte ligada ao luxo, à boate e a essa estética de passarela. A intenção agora foi pegar esse exato mesmo luxo e injetar a sujeira do nosso sistema dentro dele”, diz.

Essa transição começou a ser desenhada em “Já Sabe Qual É” e ganhou novos contornos em “Neon e Sal”. A canção observa a vida à beira-mar e os contrastes escondidos por trás de sua superfície solar. Musicalmente, o trabalho aproxima o universo eletrônico do cantor de elementos mais brasileiros e dançantes.

Em “Fatura”, a proposta assume uma forma mais direta e agressiva. Graves sintéticos, texturas industriais, afrobeat, atabaques e referências ao baile charme constroem uma faixa voltada para a pista, mas conduzida por uma letra de teor crítico.

“Eu mantenho o grave e a textura eletrônica refinada, mas adiciono a malandragem do baile charme e o peso brutal dos afro beats e atabaques. A batida continua sendo feita para os ambientes mais seletos, mas a letra agora expõe quem é que sustenta esse luxo”, observa Perseus.

Uma ruptura calculada

Embora preserve a espinha dorsal eletrônica de sua discografia, o novo repertório apresenta uma atmosfera mais fria e densa. O artista considera essa transformação uma “ruptura calculada” em relação à positividade de projetos anteriores, especialmente o álbum Aperture.

“Os meus projetos passados carregavam uma positividade e uma luz que faziam sentido naquele ciclo específico. Agora, o som é frio, industrial e implacável”, afirma.

O projeto percorre diferentes referências sonoras, passando pela bossa nova, pelo baile charme e pelo afrobeat antes de chegar a uma música eletrônica mais estática, pesada e deliberadamente corrompida. “Fatura”, segundo Perseus, representa o ponto mais intenso dessa mudança.

“Ela entra rasgando, com um peso sonoro absurdo, onde a batida vira aço e a pista agora é fria”, descreve.

Crítica ao racismo, à impunidade e à misoginia

As letras do novo repertório partem da observação dos conflitos presentes na sociedade brasileira. Enquanto “Já Sabe Qual É” e “Neon e Sal” exploram a estética, o cotidiano e os contrastes da vida litorânea, “Fatura” abandona qualquer suavização e assume uma postura mais incisiva.

“A inspiração vem da observação clínica da realidade que nos cerca. ‘Fatura’ é a música onde o dedo é apontado diretamente na cara. É nela que eu trago a verdade nua e crua, sem filtro”, declara.

Na composição, Perseus ab/orda racismo estrutural, impunidade, exploração comercial da religião e o crescimento da cultura redpill, frequentemente associada à disseminação de discursos misóginos nas redes sociais. O cantor também reconhece que sua condição de homem branco com acesso a ambientes privilegiados influencia a perspectiva apresentada na música.

“Sendo um homem branco, com acesso a espaços privilegiados, eu vejo o racismo estrutural e a impunidade operando de camarote. A letra de ‘Fatura’ disseca o esgoto moral da nossa política, o mercado da fé e a cultura redpill que disfarça o ódio misógino de garotos assustados”, afirma.

Caminho para o álbum Ballroom Act III

Os lançamentos fazem parte de uma etapa mais ampla da trajetória de Perseus e antecipam a conclusão de sua atual trilogia de álbuns. O próximo trabalho, intitulado Ballroom Act III, deverá aprofundar a combinação entre música eletrônica, referências brasileiras e crítica social.

De acordo com o artista, o público não deve esperar canções voltadas apenas ao entretenimento ou ao escapismo. A proposta é provocar desconforto sem abrir mão da força rítmica e da experiência da pista de dança.

“‘Fatura’ é música para dançar com os dentes cerrados. É o atrito perfeito entre o grave sintético e a verdade que ninguém quer encarar no espelho”, resume.

Perseus também antecipa que a narrativa dessa nova fase não oferece soluções fáceis nem finais conciliadores. “A ferida continua aberta e o asfalto continua fervendo de raiva”, diz. “É um projeto denso, conceitual e que vem para cobrar a conta de tudo o que fingimos não ver nos últimos anos.”

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