Às vésperas de estrear como headliner do Palco Supernova, 4 de setembro, no Rock in Rio, Diogo Defante lança o videoclipe “Humanoide”, novo single da carreira musical. Para um artista que tem no improviso sua principal ferramenta, a obra parte de uma sociedade cada vez mais desconfiada do que vê nas telas. Entre ficção científica, humor e rock, Defante observa esse fenômeno e provoca com uma contradição: quanto mais avança a fabricação de imagens perfeitas, mais valor ganha aquilo que só pode acontecer diante de alguém.

A história coloca Defante diante de Gepeto, um robô humanoide criado para facilitar a vida das pessoas. A experiência promissora de progresso se transforma em uma espiral de empolgação, descontrole e colapso. Quanto mais Gepeto ocupa funções antes humanas, mais o criador percebe que sua invenção disputa um espaço que parecia exclusivo seu. A criatura não precisa ser melhor que o seu criador, basta tornar difícil saber onde termina um e começa o outro.

A relação entre Defante e Gepeto conduz uma narrativa de ironia e reviravoltas. O criador perde o controle da criatura enquanto o próprio videoclipe passa a brincar com realidade e fabricação. No desfecho, a quebra da quarta parede revela os bastidores e transforma o making of em parte da história. Em um mundo no qual qualquer imagem pode ser simulada, mostrar como algo foi feito também pode ser uma tentativa de provar que aquilo realmente aconteceu. O que parecia bastidor passa, então, a ser parte da narrativa e mais uma dúvida sobre o que é verdade. 

E é justamente aí que “Humanoide” ganha uma camada de ironia. Concebido, filmado e dirigido por Daniel Ferro, Bruno Rocha e Pedro Magalhães, o clipe usou a IA na pós-produção, a partir de cenas e expressões humanas reais. A tecnologia amplia a criação, mas também expõe a crescente dependência da IA no processo criativo. A questão é até onde a IA amplia a criação e a partir de quando passa a controlá-la.

Visualmente, o videoclipe constrói esse conflito pelo contraste entre precisão e improviso. Os ambientes dominados por Gepeto são controlados e organizados, enquanto as cenas de Defante usam câmera em movimento, cortes acelerados e a fisicalidade do rock. Quanto mais a tecnologia domina o quadro, mais corpo, erro e improviso aparecem como elementos difíceis de eliminar. Mesmo com a máquina participando da construção da imagem, a presença humana insiste em escapar do controle.

Musicalmente, “Humanoide” transita pelo rock alternativo contemporâneo, com influências de hardcore, indie rock e punk melódico. Guitarras, baixo e bateria conduzem a faixa, enquanto elementos eletrônicos dialogam com o universo tecnológico. A ironia está também no processo: humanos criam a música, concebem a história e filmam o clipe, mas a tecnologia participa de sua fabricação da obra artística. A pergunta deixa de ser se a IA está dentro ou fora da criação, ela já está no processo.

Para Defante, a música nasceu menos de uma posição contra a IA e mais da observação de um fenômeno provocado por ela. “As pessoas passam a se perguntar sobre se o que veem é criação humana ou algoritmo. Eu comecei a refletir que talvez todo mundo uma hora volte a se encontrar numa praça para ver um showzinho sendo executado ao vivo, porque ninguém acredita mais em nada pela tela. Acho que o futuro vai ser voltar ao teatro, vai voltar essas coisas físicas. Refletindo nisso, eu pensei em fazer a música”, entrega. Quanto mais fácil fabricar experiências digitais, maior pode ser o valor daquilo que só acontece diante de alguém. 

É também nesse ponto que “Humanoide” encontra a trajetória de Defante, que antes do humor passou pela cena underground do rock carioca. Como baterista, integrou Let’s Go (2008), Me Gusta Rock (2013) e Catch Side (2015), retomando em 2021 o projeto como vocalista e compositor. Desde então, lançou o EP “Robson” (2023), o álbum “Tífane” (2024), com Karol Conká, os singles “Jerry” (2023), “Gari” (2024) e “Frutífero” (2025). “Humanoide” aprofunda essa trajetória ao usar o humor para discutir tecnologia, criatividade e autenticidade.

Headliner do Rock in Rio marca nova etapa

O lançamento antecede a estreia de Defante como headliner do Palco Supernova no Rock in Rio, em 4 de setembro, onde levará ao palco essa nova fase musical. Há uma ironia nesse encontro justamente quando imagens, vozes e performances podem ser simuladas, o show presencial recupera valor como experiência impossível de ser reproduzir integralmente. “Ser headliner no Rock in Rio é um peso bom. É um daqueles momentos que fazem você olhar para trás e ver que valeu a pena insistir. Quero fazer um show intenso, com a banda entregue do começo ao fim”, afirma.

Mais do que responder se a inteligência artificial é boa ou ruim, “Humanoide” propõe uma mudança de pergunta sobre criação e fabricação. O desafio talvez não seja impedir que máquinas criem, mas entender o que diferencia uma da outra quando ambas podem usar as mesmas ferramentas. Gepeto pode reproduzir comportamentos humanos, enquanto Defante aceita a contradição de usar IA para finalizar uma obra que questiona seus próprios limites. No fim, fica a dúvida se uma máquina ajudou a fazer, se ainda é possível dizer que a obra é humana.