Ídolo de uma geração, Matheus Rocha, do Br’Oz, fala sobre abuso sofrido na infância (Foto: Divulgação)

Conhecido nacionalmente desde que integrou o Br’Oz, grupo formado pelo programa Popstars e responsável por sucessos como “Prometida” e “Vem Pra Minha Vida”, o cantor Matheus Rocha decidiu tornar pública uma experiência dolorosa vivida na infância. O artista revelou ter sido vítima de abuso praticado por uma pessoa muito próxima à família.

Ao abordar o assunto, Matheus transforma uma lembrança traumática em instrumento de conscientização. Seu relato também ajuda a romper uma ideia equivocada ainda comum entre muitas famílias: a de que o risco está apenas nas ruas ou entre desconhecidos.

“Temos que estar atentos porque o perigo existe em todo lugar”, alerta o cantor em entrevista.

A experiência de Matheus mostra como o abuso pode permanecer escondido durante anos, especialmente quando envolve alguém conhecido e considerado confiável. Crianças nem sempre compreendem o que está acontecendo e podem permanecer em silêncio por medo, vergonha, culpa, ameaças ou receio de não serem acreditadas.

“Durante muito tempo, eu não associei os problemas que enfrentei ao que havia acontecido comigo”, relatou o artista. Ao falar publicamente, Matheus procura mostrar que as consequências do abuso podem continuar presentes na vida adulta e afetar a autoestima, os relacionamentos, a saúde emocional e a capacidade de confiar nas pessoas.

Um problema grave e frequentemente silencioso

Dados do Ministério da Saúde revelam a dimensão do problema. Entre 2015 e 2021, o Brasil registrou 202.948 notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes. Desse total, 83.571 envolveram crianças de até 9 anos e 119.377 atingiram adolescentes de 10 a 19 anos. Mais de um terço das ocorrências já havia acontecido outras vezes, e a residência foi o local mais frequente dos episódios.

Os números ajudam a compreender por que a proximidade do agressor não pode ser ignorada. Levantamentos citados por órgãos públicos indicam que a maioria dos crimes sexuais contra crianças é cometida por familiares ou conhecidos. Isso significa que parentesco, amizade, prestígio social, vínculo religioso ou convivência frequente não devem impedir os responsáveis de observar comportamentos inadequados.

Os registros oficiais, porém, representam apenas os casos identificados e notificados. A subnotificação é uma das maiores dificuldades no enfrentamento desse tipo de violência, pois muitas vítimas levam anos para contar o que sofreram.

Sinais que merecem atenção

Não existe um comportamento isolado capaz de confirmar um abuso. Entretanto, mudanças repentinas e persistentes precisam ser observadas por pais, responsáveis e educadores. Entre os possíveis sinais estão medo incomum de determinada pessoa ou lugar, isolamento, agressividade, tristeza, ansiedade, queda no rendimento escolar, alterações no sono ou no apetite, regressão de comportamentos e demonstrações de conhecimento sexual incompatíveis com a idade.

Professores têm papel fundamental porque convivem diariamente com os alunos e podem perceber alterações que não aparecem em outros ambientes. O Ministério dos Direitos Humanos orienta que as escolas observem mudanças de humor, sonolência, retraimento e redução do desempenho, além de trabalharem, de maneira adequada a cada idade, temas como limites do corpo, consentimento e identificação de situações desconfortáveis.

Prevenção começa com diálogo e confiança

Pais e educadores devem ensinar desde cedo que a criança é dona do próprio corpo e tem o direito de recusar contatos que provoquem medo, dor ou desconforto, inclusive quando vêm de adultos conhecidos. Também é importante explicar que nenhum adulto deve pedir segredo sobre toques, imagens ou conversas envolvendo o corpo.

A supervisão precisa alcançar o ambiente digital. Responsáveis devem acompanhar contatos em redes sociais, jogos e aplicativos, orientar sobre o envio de fotografias e deixar claro que a criança pode procurar ajuda sem medo de castigo.

Caso haja uma revelação, a recomendação é ouvir com calma, acreditar no relato, não culpar a vítima e evitar perguntas repetitivas ou sugestivas. A criança não deve ser confrontada com o suspeito nem obrigada a repetir a história para várias pessoas. O caso precisa ser encaminhado à rede de proteção e, quando necessário, a vítima deve receber acompanhamento médico e psicológico especializado.

Ao compartilhar sua história, Matheus Rocha reforça que o silêncio protege o agressor, não a criança. “Falar sobre isso é uma forma de alertar outras famílias. Precisamos ouvir nossas crianças, observar os sinais e criar um ambiente em que elas se sintam seguras para contar qualquer situação”, afirma.

Suspeitas ou casos confirmados podem ser comunicados ao Conselho Tutelar, à Polícia Civil, ao Ministério Público ou ao Disque 100, serviço gratuito que funciona 24 horas por dia. Em situações de risco imediato, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo telefone 190.


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Ídolo de uma geração, Matheus Rocha, do Br’Oz, fala sobre abuso sofrido na infância